Consórcio - investimento ou armadilha?
Não pretendo afirmar aqui que consórcios são apenas feitos de desvantagens. O objetivo deste post é desmontar alguns dos mitos
que os agentes do mercado financeiro pregam, quando estão tentando nos vender este tipo de produto.
O consórcio é uma modalidade de compra de bem, seja imóvel, automóvel ou outros, extremamente popular no Brasil e em
crescimento. Somente no Brasil, pra deixar claro, não tenho registro de outro lugar no mundo onde exista algo parecido.
Se a escolha, na compra de um bem, ficar entre um financiamento e o consórcio, matematicamente falando, o consórcio
normalmente é melhor pois vai exigir um desembolso total levemente menor do que um financiamento. Claro, dependendo das
taxas de juros reais cobradas no financiamento e das taxas administrativas cobradas no consórcio, há opções mais pesadas e
menos carregadas, em ambos os lados.
Claro, isto considerando que você não tenha pressa pra adquirir o bem. Se você, por algum motivo, tem uma necessidade imediata
de ter o bem, daí o consórcio não é a melhor escolha.
Obviamente, antes de eu desmontar os mitos que cercam os consórcios, devo dizer que o melhor mesmo, em termos de educação
financeira e visando a sonhada Independência Financeira, é segurar o impulso do consumo, poupar o dinheiro, investir e comprar à
vista, no momento em que você atingir o capital necessário. Mas isto é assunto pra outro post…
Vamos aos cinco mitos do consórcio:
1. Consórcio é uma especie de poupança programada e portanto, uma forma de investimento - vamos esclarecer um ponto
importante… um investimento, pra ser definido como tal, deve fazer com que você, o investidor, receba juros, dividendos e seja
remunerado por ter colocado o seu dinheiro lá… não é este o caso num consórcio… o seu capital não sofre nenhum tipo de
remuneração ou apreciação… na verdade, conforme vou explicar abaixo, no próximo item, você paga encargos bem pesados
pra participar de um consorcio… e além disto, não há liquidez, é muito difícil sair de um consórcio no meio e conseguir resgatar
dinheiro pago… portanto, consórcio NAO é investimento!
2. Consórcio é uma forma de financiamento com juros zero - esta aqui é uma questão puramente semântica! Tecnicamente
falando, não há juros, mas há a cobrança de taxas de administração, fundo de reserva, taxa de adesão e seguro, que podem
somar até 16%… ou seja, de cada 100 reais que você coloca no consórcio 16 serão perdidos em taxas… tecnicamente, isto
não é juros, mas na pratica, é como se fosse pois você está perdendo parte do seu capital e ao final do processo, haverá um
gap bem grande entre o que você pagou no total e o valor que você recebeu em retorno, na forma do bem… ou seja, as taxas
cobradas não são chamadas de juros, mas se comportam como se fossem… pra mim é a mesma coisa, você estará perdendo
parte do seu capital!
3. Consorcio é totalmente seguro - absoluta inverdade… existem pelo menos três riscos ao aderir à um consórcio… o primeiro é o
risco de a operadora quebrar e deixar você na mão. Embora os consórcios sejam regulados pelo Banco Central, o consorciado
não conta com garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), como a maioria das aplicações em Renda Fixa conta e,
portanto, se a administradora quebrar antes de você ser contemplado, você estará em uma situação de risco e provavelmente
não verá mais o seu dinheiro… além disto, principalmente num momento ruim da economia, há o risco de a inadimplência,
dentro do grupo, ultrapassar o limite coberto pelo seguro… neste caso, os cotistas serão chamados e provavelmente haverá
uma chamada extra ou um reajuste do valor da parcela… num financiamento, o risco de credito é do banco ou da instituição
financeira… num consórcio, o risco de credito é seu!
4. Se tenho algum recurso pra dar de lance, retirarei o bem nos primeiros meses, com certeza - muitas das pessoas entram no
consórcio porquê têm recursos pra dar um lance nas rodadas iniciais, portanto, a vida é bem competitiva nas reuniões iniciais e
não há nenhuma garantia de que você, mesmo com dinheiro na mão, será capaz de competir com os outros consorciados… há
a possibilidade real de que demore muitos meses ou mesmo anos até que o seu lance seja o vencedor; e não esqueça de que
alguém no grupo, necessariamente, terá que ser o último a ser contemplado…
5. Desde que meu orçamento permita o tamanho da parcela, terei condições de pagar até o final - é importante entender que a
parcela do consórcio sofre reajuste de acordo com indices inflacionários, normalmente INCC pra imóveis e IGPM pra veículos…
ou seja, num cenário de inflação alta, a sua parcela, ao longo dos anos, pode crescer bastante, comprometendo seu orçamento
e planejamento; diferentemente de um financiamento com parcela fixa, onde você tem a certeza de que a parcela será a
mesma até o final do contrato!
6. Consórcio é a melhor forma de investimento pra poupadores que visam o longo prazo e não têm pressa em adquirir o bem - a
melhor forma, matematicamente falando, de poupar visando o longo prazo, é investir o dinheiro, preferencialmente em uma
combinação de instrumentos de renda fixa e variável; assim você vai receber juros e ser remunerado, ao invés de pagar 16% de
taxas às operadoras de consórcios e não receber nada de juros… pura conversa mole!
Portanto, esteja ciente destes aspectos, quando aquele vendedor de consórcio vier falar com você… Como escrevi no inicio deste
artigo, há situações especificas onde o consórcio pode ser uma boa opção pra você, mas esteja ciente de que há inúmeras
desvantagens do consórcio em relação à fazer um financiamento (principalmente num momento de queda de juros, como o atual) e
de que o melhor mesmo é controlar o seu impulso, postergar a compra, poupar, investir e comprar à vista quando você tiver todo o
dinheiro…
Otavio Daudt