Previdência Privada - boa opção de investimento ou mais um golpe do mercado financeiro pra cima de nós?
Como quase tudo, um plano de Previdência Privada tem vantagens e desvantagens. Na minha visão, em termos de investimento
de longo prazo e visando à Independência Financeira, contratar um plano de previdência privada somente faz sentido pra aquele
investidor que não consegue exercer nenhuma forma de auto-controle sob seus impulsos, gasta todo o dinheiro disponível (e às
vezes mais do que o disponível) e tem que ter uma obrigação mensal pra poder poupar, além de precisar que estes recursos
fiquem bloqueados sem a possibilidade de saque, sob pena de gastar tudo na menor tentação de consumo…
Se você já passou desta fase e amadureceu, ganhando alguma dose de controle sob os seus impulsos, como de fato se espera de
pessoas adultas, não recomendo um plano de previdência privada devido aos fatores listados abaixo:
* planos de previdência privada, de um modo geral, apresentam algumas das taxas & custos mais altas do mercado, em termos de
opção de investimento; muitos planos cobram taxa de carregamento, taxa de administração anual, taxa de performance e taxa
de saída; todo este custo diminui o seu rendimento liquido, o que, ao longo de muitos anos, e graças ao efeito poderoso dos
juros compostos, pode fazer uma grande diferença no seu patrimônio final; veja o exemplo dos irmãos Santos… ambos
começaram a poupar e investir cedo e atingiram níveis muito parecidos de renda e investimento… conseguiram ser agressivos e
economizar 40% da renda, todos os anos, fazendo sobrar em torno de R$40.000,00 investindo este valor, durante 35 anos,
alcançando um rendimento médio anual de 8% sobre suas aplicações… a diferença é que Otavio, o irmão mais velho, educou-se
financeiramente e investiu em instrumentos de baixo custo, como Tesouro Direto e fundos de ações/índice, gastando em torno
de 0.3% ao ano em taxas. Artur, o irmão mais novo, menos educado financeiramente, escolheu um plano de Previdência Privada
de um grande banco, que cobrou taxas de administração de 2.5% ao ano mais carregamento de 1%. Lembre-se, os dois
investiram, todo ano, exatamente o mesmo valor e conseguiram a mesma taxa anual de rendimento… Entretanto, em função das
taxas, Otavio, ao final de 35 anos, chegou à um capital de R$ 3.4 milhões enquanto que Artur ficou com R$ 2.1 milhões… este
exemplo nos dá uma boa dimensão do poder avassalador das altas taxas no investimento de longo prazo, motivo pelo qual
devemos ser absolutamente obcecados por investir em instrumentos que nos tragam boa rentabilidade liquida (rendimento
menos taxas)… em tempo, no caso do Artur, quem ficou com a diferença de R$ 1.3 milhões? Acertou se você disse o banco!
* Numa previdência privada típica, em função do fato de os recursos ficarem, de uma forma ou de outra, presos dentro do plano
até a data de maturidade, caracteriza este tipo de investimento como de baixa liquidez, ou seja, se você precisar dos recursos,
você não os terá; considero isto uma desvantagem pelo custo de oportunidade que representa, por exemplo, se uma excelente
oportunidade de investimento aparecer e você tiver que passar pois está com os seus recursos bloqueados, este é o custo de
oportunidade; isto é fato, planos de previdência privada lhe dão pouca flexibilidade;
* de um modo geral, os planos de previdência privada oferecem uma lista de opções relativamente limitada em termos de fundos
de investimento disponíveis; muitas vezes são somente os do próprio banco ou corretora; enquanto que se você investir de
forma independente, pode decidir como quer alocar seus recursos, com muito mais opções de escolha;
* o alegado beneficio fiscal que os planos de previdência PGBL, onde você pode usar ate 12% do seu IR devido pra “abater”, não
é de fato um benefício fiscal e sim um diferimento… num plano PGBL, ao final do período, quando você começar a sacar o valor,
haverá a incidência de IR sobre o valor total e não somente sobre o valor dos juros/rendimento, como em qualquer outro
investimento, ou seja, tudo o que você “economizou”, em termos de IR, durante o período de acumulação, provavelmente voltara
contra voce no período de saque;
Mesmo se você se encontra num estágio de total falta de auto controle em relação à suas despesas, ainda assim, sugiro que você
primeiro trabalhe pra evoluir neste aspecto e depois comece a investir numa carteira de Renda Fixa + Variável visando o longo
prazo, ao invés de continuar descontrolado e investir numa Previdência Privada como forma de se adaptar à sua falta de
maturidade…
Portanto, meu comentário é de que você não faça um plano de previdência privada e ao invés, invista periódica e
disciplinadamente, com entre 15-50% da sua renda, em uma carteira diversificada e equilibrada, entre Renda Fixa & Variável,
preferencialmente entre Fundos de Índice e Tesouro Direto…
Se você já está num plano de previdência privada, minha sugestão é de que você interrompa o pagamento mensal e tome duas
ações em relação ao valor que ficar dentro do plano (assumindo que voce não possa sacar a totalidade do valor sem multa); em
primeiro lugar, faca uma análise completa da totalidade das taxas que o banco ou corretora está te cobrando… com base nisto,
pesquise outras opções e faca a migração, se possível (a lei obriga as instituições financeiras a cumprirem a portabilidade dos
planos, similarmente ao que acontece com os números de telefone celular), ou seja, você pode migrar o seu plano pra outro banco
ou corretora com taxas menores; em segundo lugar, se você tem um horizonte de tempo superior a 10 anos, procure montar,
dentro do seu plano, uma carteira de investimentos que siga a regra dos 70-30 ou 80-20 entre Renda Variável e Fixa, procurando
fundos de ações diversificados e fundos de renda fixa com boa rentabilidade… muitos dos planos de previdência “conservadores”,
investem somente em renda fixa, o que não é a opção que vai potencializar de forma máxima o seu patrimônio, no longo prazo.
Otavio Daudt