Navegando num “bear market"
Quem tem consumido o conteúdo que tenho gerado nos últimos meses, sabe que adoto e defendo uma filosofia de investimento
de longo prazo onde uma parte substancial do portfólio de investimentos deveria ser aplicado em instrumentos de Renda Variável,
mais especificamente no mercado de ações/bolsa de valores.
Nos últimos 12 anos, desde a crise de 2008, o mundo experimentou um período de expansão econômica bastante acentuado e as
bolsas de valores seguiram uma tendência bastante positiva. Por exemplo, tanto as bolsas de Nova York quanto a B3, bolsa de
valores do Brasil, atingiram valorizações históricas, jamais atingidas anteriormente.
Neste contexto, defender o investimento no mercado acionário, fica relativamente fácil, pois praticamente todos os investidores
estão vendo seu patrimônio ganhar valor ao longo do tempo.
Entretanto, num momento como o que estamos vivendo agora, esta filosofia de investimento fica bastante questionada, tendo em
vista a queda acentuada dos mercados nas últimas semanas, que chegou, de forma ampla a mais de 35%. Isto significa dizer que,
se no inicio de fevereiro, você mantinha R$ 1.000 em ações, nesta porção do seu patrimônio, é provável que restaram somente R$
650 ou menos… Pra qualquer pessoa, esta perspectiva é aterrorizante.
De um modo geral, em relação a finanças pessoais e investimentos, evito dar conselhos genéricos, pois, na minha opinião, não
existe estratégia certa ou errada, existe a estratégia mais adequada ao seu caso especifico. Características como horizonte de
tempo, grau de apetite ao risco, tolerância à volatilidade, e tamanho do patrimônio são variáveis fundamentais na decisão de que
estratégia seguir. Ou seja, é uma questão muito mais individualizada do que coletiva.
O que posso fazer pra contribuir, é dividir com vocês a minha situação e o que pretendo fazer daqui pra frente, o que pode, ou não,
ser uma referência pra você.
Então vamos lá… Pra quem está consumindo o meu conteúdo pela primeira vez, um breve resumo da minha situação atual…
Há quase dois anos atrás, atingi o ponto de Independência Financeira, ou seja, a renda passiva gerada pelos meus investimentos e
patrimônio, se tornou suficiente para custear o estilo de vida da minha familia. Desde então, deixei o mundo corporativo, e tenho
me dedicado a vários projetos e atividades profissionais diferentes, entre eles o canal IF168… Neste momento em especifico,
minha renda ativa é praticamente nula e todas as minhas despesas são custeadas pela minha renda passiva.
Em inicio de Janeiro/2020, a última vez que tinha feito um balanço do meu portfolio de investimentos, minha posição era 75%
Renda Variável e 25% Renda Fixa.
Um parênteses aqui… Sim, a última vez que conferi meu portfólio foi há 75 dias atrás! Dentro da filosofia de investimento que sigo,
não existe a necessidade de checar o portfólio diariamente… é uma estratégia passiva, que requer um re-balanceamento eventual
do portfólio a cada 3-6 meses, o que me salva tempo e energia pra me dedicar a outras coisas, entre elas ter tempo para os meus
filhos e família… fecha parênteses…
Destes 75% em Renda Variável, a totalidade deste recurso está alocada em fundos de ações ETF listados na Bolsa de NY, que
replicam indices amplos como o S&P500, Small Caps, MSCI Emerging Markets e MSCI Developed Markets. Para entender um
pouco mais sobre esta estratégia, clique aqui para ler o post sobre ETF’s onde explico as vantagens de se investir desta forma ao
invés de em fundos tradicionais de ações ou ações individuais…
Os 25% alocados em Renda Fixa estão em caixa ou em títulos públicos, a grande maioria em Tesouro Direto EUA e Tesouro Direto
Brasil.
Pois bem, em 28/Março, o meu patrimônio total tinha sofrido uma oscilação negativa de 19%. A parte de Renda Variável oscilou
mais do que isto, mas a oscilação na parte de Renda Fixa foi quase nula, o que ajudou a segurar um pouco a volatilidade. O que
apenas confirma o acerto da estratégia de alocar parte do patrimônio em Renda Fixa, especialmente títulos do tesouro americano,
como uma forma de preservar capital e minimizar a volatilidade. Historicamente, instrumentos de renda fixa, especialmente títulos
públicos, tendem a oscilar menos que ações, e até mesmo, as vezes, tendem a valorizar em momento de crise, pois muitos
investidores migram das bolsas para os títulos em busca de proteção, em momentos de incerteza. Esta migração se observa
principalmente para títulos do tesouro de governos como EUA, Alemanha ou Japão, pois são percebidos como portos seguros em
momentos de crise. Ou seja, ações e títulos públicos são instrumentos inversamente correlacionados, que tendem a se comportar
de forma oposta, quando um cai, o outro tende a se manter ou se valorizar e vice-versa.
Entretanto, esta oscilação de menos 19% foi em dólares. Se convertemos o patrimônio pra reais, houve uma valorização de 3%…
Como assim?
Como 90% do meu patrimônio está indexado em dólares, a desvalorização do real frente ao dólar das últimas semanas, faz com
que o meu patrimônio em reais, sofra uma variação inversa à desvalorização das ações, o que acaba sendo relevante a minha
situação atual, onde a que totalidade das minhas despesas são em reais. Mais uma vez, a diversificação (em termos de moeda) me
trouxe uma mitigação da queda do meu patrimônio. O que está alinhado com o histórico dos mercados. Normalmente, quando as
bolsas pelo mundo caem, todas as moedas de países emergentes tendem a perder valor frente ao dólar, em função da fuga de
capitais dos mercados locais em momentos de incerteza, o que, no meu caso, acabou sendo uma forma de “hedge” e proteção.
Pois bem, em função desta oscilação negativa acentuada no mercado, o meu portfólio mudou de 75-25 entre renda fixa/caixa e
variável, pra 64-36, ou seja, neste momento, a minha porção de Renda Variável representa 64% do meu patrimônio enquanto que
Renda Fixa+caixa representa 36%. Sem que eu tivesse feito nenhum movimento ou vendido nada, isto acontece porque,
conforme expliquei anteriormente, a parte de renda variável sofreu uma desvalorização grande enquanto que a parte de renda fixa
não, mudando o balanceamento do meu portfólio.
Dentro da filosofia de investimento que sigo, este é o momento em que tenho que agir, para re-estabelecer o balanço do meu
portfolio. O que significa que vou converter parte dos meus recursos em Renda Fixa/Caixa e comprar mais ações, até que o
equilíbrio 75-25 esteja novamente estabelecido.
Como forma de reduzir um pouco o risco de entrar no mercado agora e as ações continuarem caindo nos próximos meses, o que
não é nenhum pouco improvável, decidi usar uma estratégia chamada “dollar cost average”, ou seja, entrarei no mercado
comprando ações ao longo dos próximos três meses, o que minimiza o meu risco (mas também minimiza minha possibilidade de
retorno caso o mercado suba neste período).
Nos próximos posts, vou explicar porque não vendi nenhuma das minha posições em ações nas ultimas semanas, mesmo em vista
da alta volatilidade e queda acentuada… clique aqui pra ler…
Otavio Daudt