Renda Fixa x Renda Variável e a Relação Risco x Retorno
Antes de tentarmos entender as diferenças e semelhanças entre Renda Fixa e Variável, é fundamental que compreendamos a
relação risco-retorno e como esta se aplica ao mundo dos investimentos e finanças pessoais.
A relação risco-retorno estabelece que, em termos de investimentos, quando maior o risco que você se expuser, maior o potencial
retorno. Veja bem, sublinhei a palavra potencial porquê não quer dizer que, ao se expor à opções de maior risco, você vai
automaticamente receber maiores retornos. As quatro afirmações que determinam a relação risco-retorno estão listadas abaixo:
1) Quanto maior o risco, maior o potencial de ganho;
2) Quanto maior o risco, maior o potencial de perda;
3) Quanto menor o risco, menor o potencial de ganho;
4) Quanto menor o risco, menor o potencial de perda;
Infelizmente, baixo risco e alto potencial de ganho não existe. Se à você for oferecida uma oportunidade de investimento que
oferece estes dois ao mesmo tempo, desconfie… é bem provável que você esteja sendo enganado.
Entretanto, infelizmente, o oposto existe. Há opções de investimento que oferecem baixo potencial de remuneração com uma
considerável dose de risco… O mercado de imóveis, por exemplo, está cheio delas, mas isto é assunto para outro post.
Ao final do dia, o investidor que aceita correr um risco um pouco maior e/ou baixa liquidez, deve ser recompensado com um
prêmio, que é a possibilidade de alto retorno, em termos de rentabilidade. Assim como o investidor que aceita a limitação do
potencial retorno mas com alta liquidez, deve ser recompensado com o prêmio de baixo risco.
Este talvez seja um dos conceitos mais básicos e surpreendente mais ignorados por investidores de todos os níveis.
Neste cenário, entram as duas principais categorias de investimentos… Renda Fixa e Renda Variável…
Basicamente, instrumentos de Renda Fixa são opções de investimentos de relativamente baixo-médio risco e baixo-médio retorno
em potencial. Enquanto que instrumentos de Renda Variável são opções de médio-alto risco e, consequentemente de médio-alto
potencial de retorno.
Embora o nome Renda Fixa, se você investe em opções que caem nesta categoria, pode haver uma certa variação do seu valor
investido, mas a possibilidade de variação é relativamente pequena e você tem uma boa noção, ao investir, de qual será o seu
retorno, de acordo com o tempo do investimento. O exemplo mais clássico de investimento em Renda Fixa são os títulos, sejam
emitidos por governos ou por corporações, que para financiar suas operações, necessitam tomar dinheiro emprestado e para isto,
pagam juros aos investidores que aceitam os financiarem. A taxa de juros pode ser pré ou pós fixada e o investidor a recebe
regularmente, enquanto mantiver o titulo ou ao final de um período determinado. Como a maioria destes títulos são negociados no
mercado, o valor de um titulo sofre variação, positiva ou negativa, de acordo com a procura de mercado, o que explica uma certa
variação no valor que voce investiu. Entretanto, historicamente, títulos variam de valor em proporção muito menor do que ativos de
renda variável, como ações, por exemplo. No Brasil, títulos emitidos pelo governo federal podem ser comprados diretamente pelo
investidor pessoa física, no programa chamado de Tesouro Direto, ou por intermédio de fundos de Renda Fixa e DI, onde bancos
ou corretoras compram estes títulos e os revendem aos investidores por intermedio de fundos de investimento. Outros exemplos
de instrumentos de Renda Fixa são a Caderneta de Poupança, as Letras de Crédito Imobiliário ou Agrário (LCI & LCA), os Títulos
de corporações privadas (Debentures) e os CDB’s (títulos emitidos pelos bancos);
Instrumentos de Renda Variável, por outro lado, são investimentos onde não há nenhuma garantia de retorno ou valorização e
normalmente há bastante sobe-desce do valor do ativo, ou seja, volatilidade. Preços de ativos de renda variável, normalmente, têm
uma sensibilidade aos fatos de mercado, muito maior do que instrumentos de renda fixa. Ações públicas, de empresas listadas na
Bolsa de Valores, são o instrumento de renda variável mais conhecido e popular. Ao comprar a ação de uma ou mais empresas,
seja de forma direta ou via fundos de investimento, você está se tornando sócio desta empresa e o seu retorno pode ocorrer de
duas maneiras… pela potencial valorização do preço da ação e/ou pela distribuição de lucros desta empresa. Investimento em
imóveis, seja via compra direta ou via Fundos Imobiliários, também são, tecnicamente, Renda Variável. Imóveis, embora em geral
menos voláteis do que ações, seguem o mesmo princípio… se você comprar um imóvel enquanto investimento, você espera
retorno de duas formas… uma eventual valorização do preço da propriedade ao longo do tempo, assim como uma renda regular,
proveniente do aluguel do imóvel. Além de imóveis e ações, há muitas outras alternativas no mercado de renda variável como
investimento em moedas, virtuais ou físicas, commodities, opções e derivativos de ações, opções binárias e outros… todos estes
são considerados investimentos de alto risco e alta volatilidade, mas também de alto potencial retorno. Uma outra forma de
investimento em renda variável com alta relação risco-retorno é o investimento em ações de empresas privadas, ou seja, não
listadas na bolsa, normalmente em estagio inicial de desenvolvimento… são os chamados investimento-anjo e são de alto risco,
baixa liquidez, mas de alto potencial retorno. Confira aqui meu post sobre investimento em ações via fundos de Índices/ETF que
considero uma das melhores formas de investimento em ações para investidores que visam o longo prazo.
Uma terceira categoria seriam os chamados Fundos Multimercado, que nada mais são do que uma combinação, dentro de um
mesmo fundo, de instrumentos de Renda Variável (índices, ações ou derivativos) e Renda Fixa (títulos), de acordo com uma
proporção previamente definida.
Baseado em 90 anos de história e estatística do mercado financeiro, investimentos em Renda Variável, especialmente no mercado
de ações, trazem retornos, em média, superiores aos instrumentos de renda fixa. Por exemplo, retornos líquidos (ajustados pela
inflação) no mercado de ações americano, entre 1929 e 2016 são de 10.2% ao ano, contra 5.4% ao ano no mercado de títulos do
governo. Números no Brasil são parecidos. Claro que o mercado de renda variável apresenta uma volatilidade muito maior do que
o mercado de renda fixa, razão pela qual muitos investidores têm receio da renda variável. O sobe-desce é constante, entretanto,
no longo prazo, 10 anos ou mais, a curva é historicamente ascendente e os retornos são muito superiores à renda fixa, desde que
você diversifique seu investimento em ações de várias empresas diferentes, seja via fundo de acoes, índices ou seja montando
você mesmo uma carteira de empresas. É claro que desempenho passado não é garantia de futuro, mas é uma probabilidade
relativamente alta. Quanto maior for o seu horizonte de tempo, maior a sua probabilidade de retornos superiores no mercado de
ações, mesmo que, ao longo da trajetória, haverá crises e momentos de correções no mercado, que jogarão o seu patrimônio pra
baixo… entretanto, se você for consistente e disciplinado, de novo, baseado em 90 anos de história, sempre haverá uma
recuperação no valor do seu investimento, ao longo do tempo…
Em termos de estratégia de investimento, o recomendado é que você monte uma carteira que tenha ambos instrumentos de Renda
Fixa e Variável. A proporção de um e de outro é que vai variar de acordo com o horizonte de tempo, objetivo e perfil do investidor.
Se você está investindo com um horizonte de tempo de 10 ou mais anos, visando a aposentadoria ou independência financeira,
por exemplo, você deveria ser um tanto agressivo nesta proporção e talvez ter uma posição de 70-80% do seu patrimônio em
renda variável e 20-30% em renda fixa. Se o seu horizonte de tempo for mais curto, por exemplo, economizando e investindo para
custear o ensino superior de um filho, em digamos 4 anos, daí, neste caso, você deveria ser mais conservador e posicionar-se da
forma inversa, 20-30% em variável e 60-70% em fixa… a razão é que, se o mercado cair faltando seis meses para o seu filho
começar a faculdade, você provavelmente não terá tempo pra recuperar seu patrimônio. O mesmo vale para uma aposentadoria
planejada. Se o seu horizonte de tempo é de 15 anos, e você tem um bom fundo de emergência, pode começar de forma agressiva
com 80% em renda variável e 20% em renda fixa… mas a medida que o tempo vai passando e a data da aposentadoria começa a
se aproximar, você começa a inverter o portfólio. Digamos que, faltando 8 anos você migre pra 60% variável e 40% fixa, depois
faltando 4 anos voce já esteja em 40-60 e finalmente, faltando 2 anos você ja tenha invertido totalmente a carteira e esteja em 80%
renda fixa, diminuindo o seu risco…
De novo, toda esta teoria é baseada em estatística passada. Não é uma garantia, mas com esta estratégia, suas probabilidades
são bastante altas. É claro que você pode jogar com segurança e ficar 100% em renda fixa pra sempre. Entretanto, entenda que a
sua rentabilidade vai cair quase à metade, o que vai te obrigar a dobrar o tempo e/ou o valor de contribuição, ou diminuir pela
metade o seu patrimônio/renda passiva na aposentadoria… é matemática pura…
Ao escolher onde investir, é também importante considerar o custo do investimento, em termos de tarifas cobradas, assim como a
liquidez. Mas isto é assunto para outro post.
Otavio Daudt